Número de cirurgias bariátricas no País cresce 85% entre 2011 e 2018

Número de cirurgias bariátricas no País cresce 85% entre 2011 e 2018

Em março do ano passado, a bióloga Daniella Braga, de 52 anos, fez a primeira cirurgia de sua vida, que causou uma mudança radical: seu peso passou dos 155 quilos para os 88 quilos. Ela está entre os brasileiros que fizeram cirurgia para reduzir o estômago, operação que teve aumento de 84,7% entre 2011 e 2018 no País, segundo novo estudo da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM).

Apesar do crescimento, o número de cirurgias é considerado baixo diante da quantidade de pessoas que poderiam ser submetidas à técnica não só para reverter o quadro de obesidade, mas para tratar problemas de saúde, como diabete tipo 2. No Brasil, 13,6 milhões de pessoas têm o perfil para se submeter ao procedimento.

“Observamos um número crescente nos últimos anos, que foi maior no início da década. É um procedimento jovem, tem pouco mais de 20 anos que é feito no Brasil, mas a cirurgia é cada vez mais conhecida e as pessoas veem os bons exemplos, uma esperança para resolver um problema sério, que causa transtornos no corpo e na mente dos pacientes”, explica Marcos Leão Vilas Boas, presidente da SBCBM.

Em 2011, o País contabilizou 34.629 cirurgias bariátricas, número que saltou para 63.969 no ano passado. Entre 2011 e 2018, 424.682 pessoas foram operadas. Embora tenha havido aumento de cirurgias, a quantidade é considerada baixa em relação à população que necessitaria do procedimento.

Quem pode fazer a cirurgia bariátrica

Em casos de obesidade mórbida, quando o Índice de Massa Corporal (IMC) está acima de 40 kg/m²

Para pacientes com IMC entre 35 e 39,9 kg/m² e que têm doenças associadas à obesidade, como hipertensão, refluxo e apneia do sono.

O procedimento também é recomendado para pessoas com diabete tipo 2, que não é controlada com medicamentos. Chamada de cirurgia metabólica, pode ser feita em pacientes com IMC entre 30 e 34,9 kg/m².

Aumento de obesos e resultados positivos em pacientes motivam alta

O crescimento da cirurgia é associado a dois fatores principais, na visão de Vilas Boas. Além dos resultados positivos nos pacientes, o Brasil vive um quadro de aumento da população obesa.

Em julho, o Ministério da Saúde apresentou dados que apontam aumento de 67,8% no total de obesos entre 2006 e 2018. São mais atingidos os brasileiros entre 25 e 34 anos (alta de 84,2%) e 35 a 44 anos (avanço de 81,1%), conforme o levantamento da pasta.

“A doença está mais no entorno do que dentro da própria pessoa. Temos uma sociedade que consome alimentos industrializados, mais baratos e de fácil acesso, que chegam na casa de todo mundo com quantidades de açúcar e gordura muito elevados”, afirma o presidente da entidade.

Cirurgia é segura e tem baixos índices de mortalidade

Para Ricardo Cohen, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, é preciso educar a população e os profissionais da saúde “para mostrar que a obesidade não é uma questão comportamental, é uma doença que cresce sem parar”.

Existe, segundo ele, “a estigmatização do paciente com obesidade, taxado como uma pessoa que faz más escolhas”, o que segrega as pessoas que teriam a oportunidade de serem tratadas da melhor forma. “Não tem relação com governo e convênios que não pagam (pelo procedimento).” De acordo com Cohen, a cirurgia é segura e apresenta baixos índices de mortalidade.

O acompanhamento médico é importante para reduzir riscos em longo prazo, principalmente de déficit de vitaminas e minerais. “As pessoas reduzem a quantidade de comida como um todo e é ótimo que ele passe a comer menos açúcar e gordura, mas há redução de ferro, cálcio, vitaminas principalmente nos primeiros anos. Em longo prazo, há risco de anemia e déficit de cálcio, vitamina B, mas é algo que pode ser tratado”, explica Vilas Boas.

Total de operações aumenta tanto no SUS quanto na rede privada

O levantamento da SBCBM mostrou que o número de cirurgias cresceu tanto na rede privada, responsável pela maior parte dos procedimentos, quanto no SUS. O crescimento na rede particular foi, no período, de 79,36% – de 27.610 para 49.521.

No SUS, que oferece o tratamento desde 2008, segundo o Ministério da Saúde, foi de 112,33% – passou de 5.370 procedimentos (2011) para 11.402 (2018). “Não vai operar a população toda. É preciso pensar em mecanismos para evitar esse tipo de problema. Construir mais parques e ter uma política de incentivo ao alimento natural, sem conservante e de baixo teor calórico”, alerta Marcos Vilas Boas.

Por Paula Felix
Estadão Conteúdo

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